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terça-feira, 15 de maio de 2012

Cap. 22 - O Meeting

Todos levantamos um pouco mais cedo para nos aprontarmos para o "meeting"... Nos reunimos numa das salas de reunião usadas por passageiros em convenções e eventos. Enquanto a reunião não se iniciava, ficamos conversando bobagens e fazendo piada... Não sei como todos tínhamos tanto pique, mas creio que esse entusiasmo e as brincadeiras que faziam a vida lá ser mais fácil. O chefe Eldon entrou na sala, estava calmo e estava com todas as chaves das sessões e algumas folhas em mãos.
De praxe, iniciou o meeting mostrando fotos e falando sobre as coisas erradas que acharam na vistoria das cabines, as famosas e temidas inspeções. Falou dos comentários positivos dos passageiros e dos negativos também. Como eu sempre fui muito atencioso e simpático com meus passageiros nunca tinha problema com isso. O segredo de uma boa nota no comentário dos passageiros é puramente simpatia e prontidão quando algum hóspede pede algo. Isso vale para qualquer função no navio. O mais importante para a companhia é o passageiro sair satisfeito e desejar voltar. Isso conta MUITO. Elogios então são os que mais fazem moral com a chefia. Hahahaha.
   Após tudo isso, ele anunciou que haveria trocas de sessões. Havia muita reclamação a respeito disso, pois havia, camareiros que tinham sessões com muito mais passageiros que outros, e quanto mais passageiros, mais grana no final do mês. Mas a troca só seria feita após cada camareiro realizar o embarque.


Então a aceitação foi de boa referente a isso, claro que quem tinham sessões praticamente lotadas e foram retirados delas, ficaram putos, adivinhe quem, lógico que eram os hondurenhos ranzinzas e preconceituosos. Normal...


A reunião estava para acabar e as chaves de sessão iriam ser distribuídas, mas alguém que não me recordo agora, perguntou a respeito do "transfer" e se o boato que nem todos iriam para Europa era real. O silêncio imperou na sala. Eldon fitou todos da sala e então começou a falar:




"O "transfer" acontecerá sim e a lista dos nomes dos candidatos já foi enviada para Madrid, o restante está sendo avaliado, os outros setores também já entregaram suas listas e logo que tivermos retorno de Madrid eu avisarei vocês..."


A transferência foi confirmada... Saímos com sorriso no rosto, pois como já contei alguns capítulos atrás, nos voluntariamos para sermos transferidos, uma forma de garantir o trabalho na temporada européia.

Todos foram para suas sessões realizar mais um cansativo e apurado embarque. Eu. como de costume, arrumei apenas aquelas cabines onde viriam passageiros, e as outras eu iria arrumando enquanto as maletas não chegavam. Porém aconteceu um imprevisto. Uma das sessões para troca era a minha. O chefe Curt veio pelo corredor em passos largos e me chamou, me acelerando. Ele gritava meu nome no corredor, eu estava dentro de uma cabine terminando de arrumar o set up (papéis, cardápio, diário de bordo, etc) quando ele me achou. 

 - No hay terminado todavia hã? Cheif está llamando en la oficina!!!

Já senti um frio na barriga. Puts, o que eu fiz. Terminei aquela cabine e desci até a oficina. No caminho fui pensando no que poderia ter acontecido, foi aí que percebi o pior. Se eu fosse trocado de sessão, o novo camareiro responsável iria ver que as cabines que não foram listadas como ocupadas não haviam sido feitas.
PQP! pensei, fodeu véii! 
Cheguei na oficina, não tinha mais que 5 camareiros ali. Nem todas as sessões seriam trocadas, e eu tive que esperar um pouco mais para saber quem seria o novo responsável pelo meu setor. Estava rezando baixinho pedindo para que não fosse um hondurenho. E minhas preces foram ouvidas. O novo camareiro da minha sessão era o Bruno, um paulista muito gente fina que também havia se alistado para o TRANSFER. Nossa, foi um alívio imediato. O Curt pediu para que eu fosse mostrar a sessão para o Bruno e no caminho já expliquei toda a situação para ele:

- Bruno, ainda bem que é você. Deixa eu te avisar, teve umas cabines que não vai ter passageiro, que eu deixei por último e não deu tempo de terminar, então eu vou voltar com você, e já vou terminando elas. Foi mal mesmo, mas ta bem de boa, limpei todos os banheiros, peguei helper e tudo para deixar a sessão de boa.

- Então beleza, mas termina as que falta senão vai fode se alguém ver ou se tiver troca de cabine pra cabine vazia de lá. 

Eu respondi apenas com um sorriso. Ele, pelo menos pelo que disse, não ficou de cara. 
Mostrei a sessão a ele e finalizei, meio nas coxas, as cabines que não iriam ser ocupadas, porém devem ser limpas da mesma forma.
Curt me chamou novamente, agora seria entregue a nova sessão para mim. Novamente na oficina, vi um camareiro estrangeiro que logo levantou quando eu cheguei. Eu peguei a sessão dele, que ficava no Deck 2.


O deck de cabines de custo mais baixo  e também as mais lotadas. 
Todas as sessões do deck 2 eram cheias, em compensação, era onde se tinha mais problema de manutenção e bagunça. 
Fui conhecer minha sessão, o camareiro responsável por ela até então era um filipino recém promovido, ele era cleaner quando entrei, e agora havia subido de cargo para camareiro. Logo percebi o erro do chefe em tê-lo promovido. As cabines estavam imundas, empoeiradas e com o banheiro mofado. Se me pegassem numa inspeção ali iam, com certeza jogar tudo no meu C*! Eu fazia minhas "sapatarias", mas nada exposto daquele jeito. Já fiquei meio desesperado e vi que precisaria de ajuda pelo menos naquela primeira semana da sessão nova. Eu estava com todas as cabines ocupadas, se não me engano, uns 45 passageiros. Mais trabalho, mais dinheiro. 
Um dos fatos bem justos em um navio é isso. Os trabalhos mais pesados são valorizados, pois camareiros, garçons, bartenders, geralmente ganham mais do que o pessoal do Staff. Mas também é uma grana bem suada. 
A correria das maletas já tava começando, e agora eu tinha muito mais maletas para levar as portas das cabines. E pior, os passageiros do deck 2, eram os que mais levavam bagagem, parecia que iriam passar um mês no navio. Levavam mais coisas para 7 dias de viagem do que eu para 8 meses.
Os dias de embarque eram tão corridos que passavam voando... O trabalho era contínuo desde a hora que acordávamos até a hora de dormir. Primeiro noite de cruzeiro sempre tinha aquele jeitinho brasileiro. Me apresentava para os passageiros, explicava como utilizar as coisas das cabines, fazia as junções ou separações das camas e só. 
Eu estava com vergonha daquela sessão. O piso do banheiro da maioria das cabines da sessão estavam amarelados e com os cantos pretos de mofo e sujeira. Não tinha outra solução a não ser chamar minha salvação. A Lu, minha Helper. 
Pois sabia que era com uma sessão lotada que eu iria provar que tava cada vez melhor e que dava conta, garantindo assim uma boa grana no final do mês. 

Final do dia. Claro que fomos beber uma cervejinha no Crew Bar. Falamos sobre os passageiros novos, sobre as novas sessões, sobre quem iria de "TRANSFER" dos outros departamentos. 
Eu não fui o único que recebi uma sessão lotada, a Fran, que era minha vizinha de sessão no deck 6, também recebeu, porém continuou no deck. E os bochichos a respeito disso se iniciaram. 
Deixei a mesa e fui até o balcão do Crew Bar buscar mais cerveja e já falar com a Lu sobre ela ser minha helper aquela semana. Voltei pra mesa, galera estava em silêncio. Puxei uma cadeira e perguntei em som de riso: 

- Nossa o que aconteceu que ta todo mundo quieto? 

 Então a Marly respondeu:

- Alguém viu o Denilson? Era pra ele ter voltado hoje não é? 

Foi aí que entendi o silêncio. Denilson não havia reembarcado, como prometido pela companhia. 
A única notícia que tínhamos era que sua mãe já estava bem e que ele reembarcaria antes do Carnaval. 
Faltavam duas semanas para o Cruzeiro de Carnaval e um mês para ir para Europa.
Ainda estava em tempo. 
Fui dormir pensando a respeito daquilo. O medo e a insegurança não me deixaram dormir. Afinal, planejei tanta coisa, fiz tantos planos, investi para estar ali, minhas pernas doíam, meu corpo estava exausto, mas eu não poderia desistir. Resistindo a tudo aquilo eu estava provando a mim mesmo de quanto eu sou capaz. 
Mas e se nesses cortes que terão, eu acabar sendo dispensado? E se eu não conseguir mais um mês? 
Eu estava me deixando levar por aqueles medos e pensamentos negativos. Desci da cama, abri minha porta do guarda-roupa e peguei o cartão que estava grudado na porta. 
Era o cartão que eu escrevi antes de embarcar, com todos os motivos e objetivos que me fizeram estar ali naquele momento. Li, reli e fiquei observando cada palavra, fui lembrando de cada pessoa que desembarcou, por saudade, por cansaço, por não ser forte o suficiente. A dúvida sumiu da minha cabeça, foi substituída por uma certeza:

EU JÁ SOU UM VENCEDOR POR ESTAR AQUI, E VENCEDORES NÃO DESISTEM!

Voltei pra cama, com sorriso no rosto e com a certeza de que tudo daria certo...
Mas no navio tudo é imprevisível, e nem tudo ocorre como esperamos... 



DAEW GALERA. QUANTO TEMPO NÉ? TO POSTANDO NA MEDIDA DO POSSÍVEL... PORQUE TEM MUITA COISA AINDA PRA CONTAR POR AQUI... AS PERGUNTAS AGORA EU TO RESPONDENDO DIRETO NO COMENTÁRIO, ENTÃO COMENTA AÍ EMBAIXO E PERGUNTA QUE EU JÁ RESPONDO... EU TIRO BASE PRA ATUALIZAR NA MEDIDA QUE VÃO COMENTANDO PRA SABER SE UMA GALERA JÁ LEU OU NÃO... ENTÃO VC QUE ACABOU DE LER DA UM OI ALI HEHEHEHE... TUDO QUE FOI ESCRITO AQUI FORAM APENAS 2 MESES DE CONTRATO, AINDA FALTAM MAIS UNS 12... KKKK ENTÃO VAMO QUE VAMO hahahaha... OBRIGADO POR ACOMPANHAR E INDICA AÍ PRA GALERA!!!

FOTO: Ilha Privativa em Angra dos Reis...

PS: Me perdoem a escrita do espanhol, eu aprendi tudo lá e aprendi tudo só falando, então escrevo tudo errado kkkkkk




terça-feira, 13 de março de 2012

Cap. 21 - A ilha privativa


... Todos à minha volta estavam curiosos para saber o quanto eu havia ganhado. Eu contei as notas mais uma vez e a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi ligar para minha mãe, da mesma forma que liguei no primeiro salário, mas dessa vez a notícia seria outra. Fora as gorjetas que foi o que me quebraram o galho durante o mês, eu havia recebido 2.340,00 dólares, na época equivalia a 5.499 reais, pois trocando os dólares dentro do navio, conseguíamos o câmbio a 2,35 reais cada dólar.

Ninguém entendeu a minha pressa pra chegar a minha cabine, afinal, depois do decepcionante primeiro salário, não estávamos tão empolgados com o “PAY DAY”, mas graças a Deus, o conteúdo do envelope naquele dia tinha sido bem diferente do envelope passado.

Nos primeiros meses, geralmente nos primeiros três, há um desconto que a Pullmantur chamada de “calção”, uma forma de seguro caso o tripulante desistisse e rompe-se contrato, esse dinheiro seria usado para pagar a passagem de volta. O desconto é de 700 dólares (na minha época). Caso você cumpra o contrato todo, o valor é devolvido no seu sign-off. Mesmo com o desconto eu tinha recebido a bela quantia.

Peguei o telefone, liguei para minha mãe, ela mal pode me dar oi eu logo fui falando...

- Mãeeee! Vou ter que te dizer que foi mais um mês que não poderei depositar aqueles 1000 que peguei com você...

- Não tem problema filho, e ta compensando o trabalho?

-Mãe, não poderei depositar porque vou mandar dinheiro pra você vir aqui no porto de santos me ver, quero que pegue esse dinheiro pessoalmente, e aproveita e me traga um notebook também e uma máquina digital.

-Mas filho, vou ver como que ta o limite do meu cartão pra pegar tudo isso.

- Mãe, vou pagar tudo a vista, esse mês recebi, convertendo em reais, líquido de 5 mil conto manhêÊEÊ! Finalmente vi que valia a pena mesmo esse negóciooo!

Minha mãe ficou hiper feliz, senti o sorriso na voz dela, agora não sei se foi porque eu estava finalmente tendo resultado financeiro no trabalho que tanto me dediquei pra conseguir, ou porque eu iria pagar o que eu devia pra ela. (kkkk)

Combinei com minha mãe tudo a respeito. Eu estava muito feliz. Após desligar o telefone, vi o barulho no corredor. Abri a porta. E vi uma cena hiper satisfatória, vários brasileiros, todos sorrindo, meus amigos, que suaram tanto quanto eu aquele mês todo com receio de que tudo aquilo que haviam falado a respeito de trabalho em navio, geralmente mal, fosse verdade. Foi justamente ao contrário. O trabalho de “marinheiro” realmente era difícil, mas ao final, estava começando a ser compensador, financeiramente falando, pois como experiência de vida, é algo fantástico, que se por no papel, se eu ganhasse um terço do que ganhei eu deveria agradecer igualmente, pelo crescimento profissional e principalmente pessoal.

Todo mundo estava muito satisfeito com o salário recebido. Claro, sempre tem aquelas pessoas que insistem em ser negativas, que vêem defeito em tudo e que reclamaram sobre algum desconto e outro. Mas eu nem lembro o que disseram que não costumo dar atenção a esse tipo de gente. Quer um conselho? Faça o mesmo. Pessoas negativas lá dentro, só vão fazer com que você se sinta mais fraco e frágil, e o negócio já é difícil com uma visão positiva, imagina focando os problemas. Melhor não!

Fui na cabine da Dani, ela estava falando com a mãe dela, falando sobre a grana. Esperei ela terminar, enquanto isso fiquei conversando com a Marli... Ela estava tão feliz quanto, pois além de contas como todos nós tínhamos, a Marli tem uma filha, e era mais difícil ainda ficar longe sem ver lucro. A próxima parada do navio iria ser na Ilha Privativa da CVC, em Angra dos Reis. Como todo mundo estava com grana, marcamos de pegar um pagode na praia e curtimos melhor a ilha, dignos de passageiros. Como não havia tempo para falar com todo mundo, deixamos para marcar com o resto do pessoal no Crew Bar. Eu havia levado 2 pendrives, máquina digital, óculos, tudo em uma grande mochila.

A descida do navio para a ilha era em botes e escunas, e como esses barcos têm uma capacidade pequena de pessoas a bordo, faziam grandes filas para sair do navio. E, como era de se prever, os passageiros tinham prioridade para o desembarque na ilha. Porém para voltar ao navio, a prioridade era do CREW.

O dia estava maravilhoso, sol forte, céu azul, praia cheia, gente bonita, a paisagem em na praia sempre era ótima, tanto a natureza quanto as pessoas que se banhavam nela. A banda da ilha privativa já estava tocando e a galera toda já estava dançando. Eu fui na lan-house antes de ir curtir com a galera, uma facada, R$6,00 meia hora, mas atualizei, o que eu usava na época, o Orkut. Rsrs.

Sai da lan e a praia já estava fervorosa, a Dani já estava em frente a banda, com uma cerveja na mão, eu já passei no quiosque que ficava logo ao lado da tenda que era como se fosse uma pista, com a banda e espaço para dançar. Joguei a mala em cima da mesa e fui logo pra roda em frente a banda.

Dançamos, cantamos, bebemos, estávamos curtindo realmente aquele momento, esquecemos das dores nas pernas, dos dias de embarque, dos passageiros chatos e dos desentendimentos do navio. Parecia que estávamos de férias.

Foi nesse dia que comecei a observar as coisas de modo diferente, afinal, quanto cada um dos passageiros haviam pago para estar viajando ali? E os mais animados da ilha éramos nós, os tripulantes, curtindo todas ao lado de amigos de pouco tempo, porém de muito afeto e apego. Comecei a focar mais naqueles momentos, naqueles amigos que estavam comigo, na minha vida nova, e deixei de lado as lembranças e fatos que ficaram no porto quando embarquei afinal, naquele momento minha vida era aquela.

A tarde passou voando, já tínhamos que estar no navio, nos arrumando para o trabalho noturno, e ainda estávamos na ilha. Corremos para a Escuna, ela estava levando a penúltima leva de passageiros. Como sabiam que tínhamos horário a cumprir, embarcamos neste mesmo. Na ida para o navio, fomos falando sobre como foi agradável nossa tarde, vimos fotos, e rimos muito.

Peguei a câmera da Tati mineira, vi as fotos, estavam ótimas, e foi nesse momento que coloquei minha mão sobre a cabeça e gritei... PQP, MINHA MOCHILA!!!

Todo mundo olhou diretamente para mim na mesma hora... “O que aconteceu?”.. . “Ixi já era!”... “Será que alguém não levou?”... Cada um dizia uma coisa, mas eu só pensava em voltar à ilha para buscar, para mim que ela continuaria em cima da mesa ou em algum achados e perdidos da ilha.

Se eu embarcasse não deixariam sair pra procurar a mochila, então nem desci da escuna. Fui conversando com o homem responsável pela escuna, ele me deu algumas dicas das pessoas que eu deveria procurar para saber a respeito. Foi tudo em vão. Corri, o tempo começou a fechar, e minha mochila perdida, furtada ou sei lá o que havia acontecido. Fiquei mais algum tempo falando com algumas pessoas dos quiosques para saber se ninguém havia guardado. Nada, ninguém viu, ninguém pegou, ninguém guardou. Me contentei com a perda, afinal, foi bobeira minha. O que mais me doeu foram as fotos que perdi, momentos registrados que não se repetiriam mais. Segui para sair da ilha, e voltar ao navio. Pronto: cagada número 2, a última escuna já havia saído.

Corri, pedi (praticamente implorei) para um cara que estava indo para outra ilha, me levar até o navio, ele disse que não iria, pois o tempo havia fechado e o mar estava agitado, fora que ele não tinha obrigação nenhuma. Pedi mais algumas vezes e as outras pessoas, que assistiram todo o meu desespero pressionaram o cara também. Ele acabou me levando.

Chegando perto da entrada do navio. Só consegui ver o Morazam, um dos meus chefes, com o rádio na mão, confirmando a minha chegada. O olhar dele era de preocupação, e ao mesmo tempo, de reprovação. Subi as pressas ao navio. Passei pelo Morazam, ele estendeu o braço, me fez parar.

“Que paso? Le gusta Warnings?”

Eu lhe expliquei o ocorrido, ele mal ouviu, apenas me disse para correr para minha cabine que em 5 minutos já iria começar o turno da noite. Corri, novamente, todos no corredor me perguntando o que aconteceu. Quando eu cheguei na cabine que soube, pelo meu companheiro de cabine, o Vitor Hondurenho, que o meu nome foi repetido pelo capitão diversas vezes, e claro, ele não iria perder a oportunidade de dizer:

“Brasileño bruto”! Solo quier fiesta, no gusta trabajar!

Nem perdi tempo discutindo com ele, só pensava em ir logo pegar o cartão da minha sessão e iniciar o trabalho.

Cheguei à oficina, muita gente perguntando o que tinha acontecido. Expliquei várias vezes. A todo o momento eu lembrava que teria de gastar mais comprando uma nova máquina digital.

Tentei me concentrar no trampo, correu tudo tranqüilo, como de rotina.

Mas na volta para a oficina o assunto era outro. Havia um papel com letras enormes escrito: ¨MEETING” 8:00 AM.

Todos ficaram curiosos, inclusive eu, afinal ninguém tinha esquecido dos rumores sobre a peneirada para a Europa.

Muita gente disse que era apenas um meeting de rotina. Eles se enganaram...


COMO PUDERAM PERCEBER, EU REALMENTE TINHA ABANDONADO O BLOG, MAS UMA DAS COISAS QUE TRACEI COMO OBJETIVO ESSE ANO É DAR CONTINUIDADE E COMPARTILHAR COM VOCÊS TODA A MINHA TRAJETÓRIA A BORDO. A TERCEIRA PARTE DO VIDEO JÁ ESTÁ TODA FILMADA MAS NÃO TO CONSEGUINDO EDITAR COM O MESMO PROGRAMA POIS ELE ERA FREE SOMENTE 15 DIAS E NÃO SEI MEXER MUITO NESSE TIPO DE COISA, POR ISSO DEMOREI MAIS AINDA PARA VOLTAR PARA CÁ, POIS QUERIA POSTAR O VÍDEO ANTES... COMO NÃO CONSEGUI VOU DEIXAR PRA POSTAR ELE LOGO QUE EU CONSEGUIR EDITÁ-LO. CONTINUAREI A CONTAR A VERDADE NUA E CRUA DE UM TRIPULANTE... VOLTEM A ACOMPANHAR, INDIQUEM O BLOG E BORA ATUALIZAR ISSO TODA SEMANA... AGORA QUE O NEGÓCIO COMEÇA A PEGAR uahahuahuahuahuha....


COMENTE AÍ E DEIXE SUA OPINIÃO, DIGA O QUE GOSTARIA DE VER NO BLOG E PODE MANDAR PERGUNTAS TAMBÉM... ABRAÇÃO!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Finalmente O POST 20

Galera me perdoem a demora mais minha vida fico de ponta cabeça e tive que ajeitar tudo.... Não abandonarei mais vocês, ta aí a primeira parte do post 20 respondendo as perguntas, a segunda parte posto amanhã pois preciso editar ainda..... Vejam aí e como sempre, comentem... ainda essa semana volto contando o restante da minha história nos barquitos da vida.... UHauHAuHAU!!!





LOGO A 3ª PARTE

COMENTEM AÍ E SIGAM O BLOG E O CANAL TBM....

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Cap. 19 - "Warning"


Eram 9 da manhã, como combinado, subi na respectiva sala onde encontraria o Capitão, o sem alma. Haviam apelidado ele assim pois ele não sorria pra ninguém e nem respondia se alguém o cumprimentasse pelas corredores, era um homem fechado, mal-humorado e diziam que ele era injusto muitas vezes. Não havia o que eu fazer, afinal, eu perdi a "tarjeta" da minha sessão, o "warning" era conseqüência.
Cheguei ao lado da sala, estavam lá meu chefe, Eldon, o chefe do Restaurante, com um Assistant Waiter que devia ter feito alguma cagada assim como eu. Entramos na tão temida sala do "Sem Alma". Ambos os chefes de departamento falaram o acontecido, após a explicação dos chefes, o Capitão os dispensou e ficaram na sala, eu , o guri do restaurante, o Safety Security que estava traduzindo nosso "portunhol" pro inglês britânico do Capitão, que era grego. (nossa que merda de confusão é essa auhauhau).
Falei exatamente tudo que havia acontecido, sentei já esperando o papel oficial para firmar (assinar em espanhol) a advertência, com mais duas, eu ganharia meu sign off e não poderia retornar mais para a companhia.
Mas não havia papel algum, o capitão, apenas me chamou, eu olhei para ele, e ele me explicou como fazer para não perder a "tarjeta". Exemplificou com a sua própria, que havia um furo, e era amarrada com uma corda elástica, impossível de perdê-la assim.
Me surpreendi. Todos pensavam muito mal daquele homem, e ele era totalmente o oposto, foi muito compreensível, e disse que isso era algo comum de se acontecer.
Saí da sala com um sorriso de orelha a orelha, a Iemanjá tinha me protegido, não sabia que ela aceitava cascas de frutas e chinelos, porque foi a única coisa minha que foi pra ela, mas ela havia me protegido.
Como de costume em qualquer navio, todos queriam saber como tinha sido minha visita ao capitão. O dia passou e eu contei a todos como foi. Todo mundo ficou feliz por mim, ou melhor. quase todo mundo...
O chefe Eldon já tinha uma imagem ruim sobre mim por causa da sua única inspeção, algo que eu já relatei aqui a alguns posts atrás. Mas pra ele foi indiferente, por mais que ele me achasse sapateiro, ele tinha uma certa simpatia comigo.
Quem não gostou de eu ter saído ileso dessa foi o que mais me encheu por causa da chave: Chef Morazam.
Foi bebemorar a minha sorte no crew bar, e havia um recado no mural de lá indicando o dia do pagamento. o segundo pagamento meu à bordo. faltavam apenas alguns dias. Eu tava torcendo pra que os dias passassem rápido até lá.

Os dias foram passando, e o "pay day" ficando cada vez mais próximo.
Eu não dormia a tarde, como fazia a maioria dos meus companheiros de profissão, passava a tarde, lendo, escrevendo, ou inventando algo para fazer. Pois fazer isso dentro da minha cabine com o Victor Hondurenho roncando e reclamando caso eu acendesse alguma luz, preferia ficar fora ou então na cabine da Dani e da Marli, onde passei tardes divertidíssimas.
Agora faltava apenas um dia para o pagamento, eu estava beeeeem feliz.
O telefone tocou, eu fiquei morrendo de medo de ser meu chefe me acordando por causa de atraso novamente.
Atendi, era ele mesmo. Pulei na cama, mal ouvi ele falar, e já desliguei. Eu estava retirando as roupas do uniforme quando percebi que havia algo errado.
Victor estava deitado, dormindo ainda, e o relógio marcava 7 horas da manhã. Antes de eu entender algo, o telefone tocou novamente.
Não sei, mas aquele telefone tocando de manhã me dava muito mais medo que qualquer Big Fone daquele programa extremamente culto da Globo (nada contra, eu vejo também rsrs).
Era Morazam, ele perguntou se eu havia bebido, respondi que não, a voz dele pareceu entristecer-se, ainda não sabia o motivo, mas logo ele me falou.

- Hoy usted tendre que venir mas temprano, alcool test!

Desliguei o telefone pasmo. Por que eu? Agora sim eu havia entendido o desânimo quando afirmei não ter bebido no dia anterior. Ele me queria fora, pelo menos até então.

O alcool test e drugs Test, são testes realizados mensalmente nos navios, onde é escolhido "aleatóriamente" 5 ou 4 pessoas de cada departamento para ver se você está bebendo demais, ou se drogando no período a bordo. Eu digo aleatoriamente pois é isso que eles dizem fazer. Mas na real eles escolhem quem eles acham que bebe demais, e que querem ver fora da equipe. Foi o meu caso, pois essa tarefa de "sortear" as pessoas testadas do nosso departamento era dele. Depois que viu que eu tive sucesso no meu encontro com o capitão, ele ficou um pouco magoado comigo, pois o próprio capitão falou diretamente a ele que minha visita lá foi uma perda de tempo para ambos, tanto para mim quanto para o "Sem Alma" (mas com justiça na minha opinião)e isso, tinha deixado ele bem louquinho pra me ferrar.

Graças a Deus eu não tinha bebido um dia antes, nem tinha ido ao Crew Bar, realmente foi Deus. Um cara que vai todos os dias pro bar e justo num único dia do mês não vai, e descobre que tem que fazer um teste de nível alcoólico no sangue no dia seguinte, é algo divino. Eu digo e repito pra vocês, eu fui um cara MUITO SORTUDO em tudo que eu aprontava por lá. =D

O dia passou, eu imune, e fui o comentário do dia, dois caras do Bar foram mandados embora pois tinham grande teor de alcoól no sangue. Uma pena. E o pior, dentre os 2o testados, 13 eram brasileiros.
Mas nada como o PAY DAY para animar qualquer um. Enfim ele havia chego.
Era o primeiro salário com mês completo de passageiros a bordo, então todas as semanas viriam com comissão de acordo com os passageiros que eu tive na minha sessão.
O sorriso das pessoas que recebiam estava muito diferente do que da primeira vez que estive no Crew Purser pra receber.
Era cedo e parecia que todo mundo resolveu ir ao mesmo tempo receber, a fila estava grande, mas divertida, afinal todo mundo estava ansioso pra ver o salário real que se ganha em um navio cruzeiro.
Chegou minha vez, o meu envelope estava mais gordinho, assinei o papel com o meu nome e o valor pago a mim, não conferi nada na hora. saí da frente da mesa com apenas um passo pro lado. E abri o envelope ali mesmo, onde haviam acabado de jogar vários dólares minutos antes.
Contei... Meu sorriso foi surgindo instantâneamente em minha face.
Contei a última nota, eu havia ganho naquele mês o valor de...


GALERA NEM VOU PEDIR MAIS DESCULPAS NÃO PELA DEMORA, PORQUE NÃO ADIANTA EU DEMORAR E PEDIR DESCULPA TODA VEZ NÉ, PROMETO AGILIZAR MELHOR AQUI, PROMETO MESMO!

GENTE MANDEEEEEEM MUUUUUUUUITAAAAAA PEEEEEEEERGUNTAAAAAAAA... ESSA É A HORA, O PRÓXIMO POST SERÁ UM VIDEO MEU RESPONDENDO TODAS AS PERGUNTAS DOS ÚLTIMOS 10 POSTS E SE VC TEM ALGUMA DÚVIDA REFERENTE A QUALQUER COISA É SÓ PERGUNTAR QUE FAREI UM VIDEO RESPONDENDO TUDO PRA AJUDAR VOCêS...


Imagem do post: Mios Dólares!

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Cap. 18 - A Chave perdida


PRIMEIRAMENTE QUERO DESEJA UM ANO REPLETO DE REALIZAÇÕES E MUITA HISTÓRIA BOA PRA CONTAR PRA TODOS NÓS.
"Segundamente" quero me desculpar pelo praticamente abandono né, última postagem foi ano passado dia 19 de dezembro. Foi mal mesmo, mas sabe como é a correria de final do ano, e do começo também, aos poucos to ajeitando tudo e terei mais tempo pra internet e, é claro, pro blog.
Acompanhem aí e gente, COMENTEM, NEM Q SEJA PRA ME XINGAR POR DEMORAR PRA POSTAR... NO POST Nª20 RESPONDO E COMENTO CADA COMENTÁRIO DOS 10 ÚLTIMOS POSTS, VOU FAZER ISSO SEMPRE A CADA 10 ATUALIZAÇÕES. =D Mais uma vez, ME PERDOEM PELA DEMORA... então vamos lá...

As despedidas são sempre difíceis no navio, lá o sentimento é tão intenso, a carência e tudo mais, que a galera que se identifica, se liga de uma forma que parecem amigos de infância...
O Denilson se foi, voltou pra ficar com sua mãe nessa hora difícil, e com toda razão, família em primeiro lugar. Falando nisso, se você tem problemas com sua família, briga com seus irmãos e acaba se isolando dos seus parentes, o navio é uma boa pedida. Lá você sente o quanto sua família é importante pra você, Eles sentirão saudades suas tanto quanto você deles, e quando voltamos pra casa, a impressão que temos de estar em casa é de total conforto e aconchego da família, afinal, família é uma só.
Mais um dia de embarque se foi, mas dessa vez, o cruzeiro não estava tão cheio, eu tinha algumas cabines que não foram ocupadas, ufa, menos trabalho, mas também, menos dinheiro.
Nas cabines vazias de sua sessão tem que, supostamente, tirar o pó diariamente, e deixá-las totalmente prontas, pois pode não haver na lista como cabine ocupada, mas pode haver trocas e embarque de última hora, então terá que limpá-las igual (o que é um saco). Mas vocês me conhecem não é.
As cabines que eu vi que não iriam ocupar eu deixei pra faze-las durante a maleta, pois como vocês já leram anteriormente, cada um leva as malas de sua sessão. Então o que eu fazia: sabia quais eu não teria embarque, e na correria que é de manhã, com tanta coisa pra fazer, eu focava nas listadas como ocupadas, e apenas tirava o lixo e a roupa de cama. Deixava engatilhado os materias para fazer cada uma delas, se desse tempo antes do meio dia, eu limpava todas, mas geralmente não sobrava tempo não, então ficava sempre alguma pra trás. Eu abusei, e muito, da sorte. Foi a primeira vez que tive a experiência de fazer isso. Descia. almoçava rapidamente, e voltava para a sessão, banho tomado, pra receber os passageiros e suas "maletas".
Eu levava todas em frente a porta da cabine, e se por acaso tivesse bagagem de alguma das não feitas por mim pela manhã, eu entrava logo e já fazia a cabine, preparava na correria antes deles chegarem. E, sempre tenha uma resposta (uma desculpa) na ponta da língua caso os passageiros entrem e esteja faltando algo, a primeira impressão é a que fica, seja excelente com o passageiro, e ele será no mínimo educado com você ( o que já é ótimo). Arrumei as cabines que faltaram durante as "maletas", e me apresentei pela noite, como de costume. Como combinado entre todos os camareiros, ninguém limpava cabines na noite de embarque, pois era desnecessário ao nosso ponto de vista, não pelo dos nossos chefes. Apenas juntava-se camas ou separava.
O meu supervisor, o Curt, ficou me cobrando tirar o pó das cabines vazias e aspirá-las. Como eu tinha poucas cabines para limpar, entrei nas vazias para arrumar o "set up" e tirar o pó. Era noite e um passageiro me chamou para pedir gelo. Eu fui buscar, o passageiro havia saído da cabine, então fui colocar o balde na mesinha.
De repente comecei a suar frio, fiquei extremamente nervoso, apalpei toda minha roupa, não senti nada. Eu havia perdido a chave mestra (era um cartão vermelho no Soberano) da minha sessão. Fiquei desesperado, eu liguei pro Curt via bip, e ele nada de retornar, pedi a opinião dos meus vizinhos de sessão, eles disseram que era pra eu descer na oficina logo, e avisar, pois alguém podia ter encontrado a chave, e usar de má fé.
Desci, torcendo para que o chefe Eldon não estivesse lá. mas ele estava.

- Que paso? Habla, que paso?
Eu falei o que havia acontecido, ele mandou eu voltar, e procurar na sessão. Me emprestou a chave que abria todas as cabines do navio inteiro, e eu procurei, entrei cabine por cabine, e nada da minha "tarjeta". Usei a "tarjeta' do Morazam (dizia morassam) para terminar de fazer as cabines. Quando cheguei na oficina, para entrega o Daily Report e devolver a chave mestra pra Morazam, todos já estavam sabendo do que havia ocorrido.
Morazam fez questão de falar alto e em bom som, que ele havia trabalho 15 anos em navio, e nunca havia perdido nada da empresa. Eu achei desnecessário ele ficar gritando aquilo, afinal, eu e ele éramos pessoas diferentes, então respondi a ele, cauteloso e educado.
"É por isso que você hoje é chefe, somos pessoas diferentes, nunca que eu vou ficar 15 anos trabalhando aqui".
Parecia que minhas palavras haviam silenciado a de todos ao redor, Morazam apenas me olhou, com um olhar fixo, e eu apenas dei um sorriso de canto de rosto, sem graça, tipo "falei besteira", mas o silêncio permaneceu. Fui pra cabine.
Eu iria dormir direto, mas o pessoal me ligou, então fomos pro Crew Bar, todo mundo bebendo e perguntando como eu consegui perder a chave.
Mas o assunto principal ainda era sobre o transfer pro Atlantic Star, afinal, nosso grupo de amigos todo pediu a transferência, para garantir a temporada européia.
Eu estava cansando já disso e nem comentei nada, tinha sido um dia estressante pra mim, e nem vontade de beber eu tive, apenas molhei os lábios com uma Coca-Cola mesmo. Fui pra cabine descansar.
Liguei pra minha mãe, quando ela disse "Alô?". Não me contive, chorei, mas chorei feito um bezerrinho desmamado ( nem sei que situação fica um bezerro desmamado, mas deve ter sido parecido), ouvir a voz da pessoa que mais amamos no mundo, sabendo que vai demorar ainda pra poder ver essa pessoa pessoalmente, dói, nossa, como dói, a saudade sabe bater com força quando quer.
Dormi aliviado.

Fiz todas as coisas rotineiras de costume, e quando cheguei a Oficina pegar a chave, na verdade, emprestar a de Curt, o assistente responsável pelo meu Deck, havia um aviso sobre a mesa com meu nome. Eu não entendi o que era, me explicaram, eu iria receber um "Warning", por ter perdido a chave. O meu primeiro Warning.
As 9 horas da manhã eu deveria ir até a sala do meu chefe para que ele me acompanhasse até o Capitão, o indivíduo de cargo menos apenas que o Comandante.
Eu não estava preocupado até ouvir uma das colombianas pequeninas perguntarem a mim:
- Tu vai firmar "warning"?
- Si, creo yo que si.
- Tengo miedo d'aquele hombre...
Então perguntei:
- Que hombre?
- No lo sei su nombre, pero lo llamam de sin alma!

Sin alma, em espanhol, quer dizer, SEM ALMA.
Uma familiar sensação de frio na barriga encheu meu corpo. Agora eu estava com MEDO.

GALERA, VALEU PELA COMPREENSÃO, AGORA TEREI MAIS TEMPO PRA ATUALIZAR, ME COBREM ATUALIZAÇÃO TÁ, QUE DAÍ ME TOCO! AUHAUHAUHAUA UM GRANDE BJO E BOA SORTE A TODOS. PERGUNTEM, COMENTEM, ESSE ESPAÇO É DE VOCÊS.


Imagem de hoje: o bipolar chef MOrazam

domingo, 19 de dezembro de 2010

Cap. 17 - Despedida Inesperada


... Quem trabalha ou trabalhou em navio sabe, os pés, além de doloridos, ficam podres. Eu nunca tinha tido calos nos pés ou outras pragas como frieiras e etc. Mas como no navio usa-se muito sapato e é uma correria do caramba, seus pés acabam "bichando" um pouco. Vocês que vão embarcar logo, levem algum remédio pra calo ou pra massagem relaxante pra pés e pernas, é ótimo.
Mas como diz o ditado popular, há males na vida que vem para o bem, e eu ali, na cama de cima do beliche da minha cabine, já soube como dar o troco no hondurenho que passava as horas de folga falando mal de brasileiros, o mesmo que poderia ter me acordado e evitado toda a situação contada no post anterior.
Voltei pra minha sessão de trabalho pra arrumação da noite. Tudo tranquilo, alguns "refuseds" e algumas cabines monstruosamente bagunçadas. Normal, temporada brasileira o povo faz festa mesmo. Entreguei a chave na oficina e passei na minha cabine, aquele dia eu estava muito cansado, nem tirei o uniforme, fui direto pro crew bar ver o pessoal. Estavam todos ansiosos para saber sobre a transferência de navio, para ter certeza de quem iria pra Europa ou não. O assunto entre a tripulação era esse. Nós tivemos o privilégio de saber antes sobre tudo isso, por nosso chefe Eldon ser totalmente correto com a equipe de trabalho dele. O cansaço me venceu e eu fui pra cabine, dormi como uma pedra.

Meu celular despertou e eu logo pulei da cama, agora a minha atenção com o horário era dobrada. Victor, o hondurenho que eu dividia cabine, estava entrando no banho, no exato momento que levantei. Olhei em cima do balcão da cabine, lá estava o copo dele, esperando para ser usado como de costume. Eu apenas ajeitei o uniforme e aguardei ele tomar banho, nesse meio tempo lembrei das coisas que ele vivia dizendo sobre brasileiros, e sobre a falta de companheirismo dele comigo. O meu pé estava todo fudido, eu tava com frieira, a pele descascava entre meus dedos e alguns pontos estavam na carne já, por eu ficar cutucando.
Antes dele sair do banheiro, peguei o copo dele, lembrando as coisas más que ele falava, e passei todo o orifício do copo entre meus dedos, é, exatamente onde estava a frieira, onde a pele estava saindo, onde tava podre mesmo. Não deixei um ponto sequer sem ter passado pela minha frieira, e coloquei o copo exatamente no mesmo lugar.
Ele saiu do banheiro, eu lhe desejei bom dia e entrei, escovei meus dentes, lavei o rosto, me preparei pro banho, mas, propositalmente deixei o material de higiene pessoal em cima da minha cama, voltei para pegar. Ele estava fazendo exatamente o que esperava. Encheu o copo com a metade do refrigerante que havia sobrado na garrafa, e tomou, tomou com gosto. Sabe quando a gente ta com sede, e termina de tomar água e faz aquele "aaaaaaah" de refrescância? Ele fez até esse sonzinho depois de enfiar a boca em todos os germes da minha frieira. (uahuahuahuah). Apenas sorri, peguei minhas coisas em cima da cama, e fui pro meu banho.
A semana estava acabando, e com isso, o cruzeiro também, era noite do comandante, e alguns camareiros são eleitos pra entregar os canapés durante a noite de gala. Eu fui dos felizardos para aquele dia.
Chegou a noite, fui para a oficina encontrar o pessoal que iria servir os canapés comigo. Eram divididos em dois turnos, seguindo o horário do jantar dos passageiros, primeiro ou segundo turno. Eu fui servir o primeiro turno, que é melhor, pois você serve rapidinho e corre pra sua sessão fazer as cabines, pois isso é um trabalho extra, eu tinha que arrumar as cabines com set up da noite quando terminasse de servir. Eu andava pelo teatro em passos rápidos e oferecia pra todos os passageiros que eu via. Passava pelas fileiras de cadeiras servindo todos, adorava quando haviam passageiros gulosos que pegavam quase a bandeja inteira, isso acelerava o trabalho e eu teria mais tempo de ir pra minha sessão.
Voltando pra minha sessão, passei pela sessão do Denilson, ele não estava lá, e no lugar dele estava o camareiro da sessão do lado. Perguntei dele, e disseram que ele havia recebido uma notícia e teve que ir até o crew purser (setor que cuida de documentação, passagens e de embarque e desembarque dos tripulantes). Estranhei, mas fui trabalhar, haviam 17 cabines a minha espera.
Foi no bar que eu fui saber o motivo pelo qual o Denilson foi falar com o pessoal do crew purser. A mãe dele estava no hospital, em coma, e ele foi se informar sobre as condições de ele poder ir pra casa e voltar depois. Isso é uma das coisas que todos os tripulantes temem: PROBLEMA NA FAMÍLIA. Digamos que o problema é em relação mais pra saúde mesmo, pois você estar longe, sem ver sua família, depois saber que algum parente está em coma, doente no hospital, é foda. Ele contou a situação pra nossa galera de sempre, apoiamos a ida dele pra casa, pois nesse caso, o tripulante desembarca com justificativa, então não é desistência, ele poderia voltar logo que sua mãe melhorasse. Foi o que aconteceu. Ele iria voltar pra Curitiba naquela mesma semana, e então foi feita uma pequena despedida entre os mais chegamos no crew bar mesmo. Sexta-feira, véspera de embarque, o dia em que os camareiros deviam ficar de repouso, pois dia de embarque é o dia mais foda pro camareiro. Mas estávamos lá, todos nós, bebendo, curtindo, e nos despedindo de um grande amigo. Ele chorou, a gente também, despedida é foda.
Mas o melhor de tudo é saber que ele logo voltaria, era questão de duas semanas, segundo o que o Crew Purser disse.
O pessoal do Crew Purser mentiu.

GALERA SEI QUE TO DEMORANDO DECADAS PRA POSTAR MAS TA MAIOR CORRERIA, MAS NÃO PENSEM QUE ABANDONAREI ISSO AKI, TENHO MTA COISA PRA CONTAR AINDA, ISSO QUE CONTEI ATÉ HOJE SÃO APENAS DOIS MESES DE CONTRATO. UAHUAHUAHUAHU

COMENTEM, DIVULGUEM, CRITIQUEM E PERGUNTEM, ESSE ESPAÇO É DE VOCÊS..... UM GRANDE BJOO E ABRAÇO PRA TODO MUNDO AÍ! ATÉ!

FOTO: A GALERA NA CABINE DA DANI CACHACINHA!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cap. 16 - Uma coisa leva a outra


... No crew bar estavam todos os setores, e a galera do restaurante, e do bar também, perceberam a movimentação, uma das meninas do mar se aproximou e perguntou qual era o fervo. O nome dela era Kelly, curitibana muito gente fina do bar. Então o motivo da reunião foi explicado a ele e ao restante dos camareiros que estavam ali.
A Marília, camareira tímida do Rio Grande do Sul, que estava namorando o Bruno paulista, também camareiro, explicou o raciocínio.

- Gente pensem comigo: a gente sendo voluntários para ir de "transfer" (transferência pro outro navio), é a garantia que iremos pra Europa, trabalhar na temporada de lá. Porque todo mundo diz que metade de nós irá ficar no navio só até acabar a temporada aqui, só vão os melhores. Quem já fala bem espanhol e inglês, e aquele latinos de merda...

Bruno, o namorado dela, continuou...
- Bem dessa, então vamos fazer a lista e entregar pro Eldon antes que outras pessoas entreguem, pra garantir nossa vaga no outro navio, e nossa ida para a Europa...


Ninguém questionou, todos concordaram com o feito, e o chefe Eldon comentou que precisaria de umas 15 pessoas para o "transfer", então ali completava a maioria das vagas e ainda sobraria mais algumas.
A lista passou sobre a mesa, e todo mundo foi preenchendo com nomes e alguns outros dados, como número de cabine e sessão.
A Kelly do bar, disse que não sabia nada disso, que o chefe do bar não havia falado nada. Mas nós confirmamos a ela, que não era um boato, saiu da boca do nosso chefe.

Então, a fofoca foi se espalhando no navio todo, em todos os setores, em menos de dois dias, todo mundo da tripulação comentava sobre esse possível transfer. Ainda faltava quase um mês para o fim da temporada no Brasil, e o tempo passou mais devagar, pois todos estavam ansiosos com a confirmação da transferência e de quem ia ou não iria pra Europa. Os dias foram passando, e logo após o cruzeiro de carnaval, iríamos ter a resposta de quem seria transferido mesmo ou não. A Tereza, uma brasileira que estava no segundo contrato dela, avisou que isso era apenas fervo, que TODO MUNDO iria para a Europa, que eles falavam isso apenas para assustar a galera. Mas todos estavam com receio da mesma forma.
Vocês, quando embarcarem, ouvirão essa mesma história sobre a temporada brasileira e européia.

Os dias passaram e faltava apenas um cruzeiro para a chegada do cruzeiro de carnaval. Depois do carnaval havia apenas mais outro e partiríamos para Barcelona, na Espanha (ou não).
Eu me preocupei um pouco com isso, o dia do segundo pagamento estava chegando, enquanto isso eu estava me virando com as gorjetas, que, para o contrário do que dizem, são muitas no Brasil, pelo menos eu recebi horrores.
Eu era um dos poucos, ou senão o único, que não dormia a tarde, preferia conhecer as cidades, logo posto algo com as fotos da rota que o Soberano fazia.

Eu estava indo todos os dias para o crew bar, e num certo dia estávamos combinando em ir para a praia em Ilhéus-BA, e nisso fui deixar a roupa separada para não demorar muito no dia seguinte arrumando nada. Nisso percebi a quantidade de roupa suja que eu tinha para lavar, era um saco enorme. E eram 1 e meia da manhã, mas se eu não lavasse não teria nem como sair, a não ser que eu fosse de uniforme né!!!
Lá foi eu, com um saco nas mãos, sabão em pó e amaciante. Cheguei lá, as máquinas estavam todas ocupadas. Subi no crew bar mais um tempo e voltei quase uma hora depois, enfim havia uma das máquinas livre.

No navio, é tudo automático, você joga sua roupa dentro da máquina, programa ela, geralmente a programação dura uns 40 minutos, depois desse tempo tem mais uns 40 para secar toda a roupa, mas dai o tempo pra secar varia de acordo com o tecido e peso da roupa. Por mais que não precisa fazer nada além de jogar de uma máquina para a outra, ENCHE O SACO.
A roupa terminou de bater, eram 3 horas da manhã, o crew bar estava fechado e a maioria da tripulação estava dormindo. E eu estava caindo de sono, mas ainda tive que esperar um pouco para secar, pois todas as secadoras estavam ocupadas. Eu resolvi esperar ali mesmo, na lavanderia para desocupar alguma secadora. Enquanto eu esperava, meus olhos fecharam e só despertei as 4 da manhã, pois um dos filipinos queria usar a mesa para colocar as toalhas limpas. Eu me desesperei quando vi o horário, eu ainda não tinha colocada roupa nenhuma para secar, então coloquei e tentei ficar acordado, mas não funcionou, dormi novamente na mesa da lavanderia, mas dessa vez um filipino dividiu o espaço comigo. Logo o outro acordou nos dois e eu peguei minha roupa e voltei para a cabine, eram 5 e meia da manhã. Eu estava podre, cheguei na minha cabine, arrumei o relógio pra despertar as 7 e meia e capotei.

Um som alto e agudo me despertou na cabine, o estranho, que não era o som que meu despertador fazia, era o TELEFONE. Atendi sem ao menos ver a hora. Era chefe Morazam, então ele perguntou.

- NO trabajas hoy muchacho?
- Claro que vou sim...
Eu respondi ainda com a voz de sono.

- Entonces venga, cojer su llave...

Ele desligou sem se despedir, foi aí que fui ver a hora, era 9 e meia da manhã, e eu já devia estar trabalhando há 1 hora e meia.
Nunca me vesti tão rápido na minha vida, em menos de 3 minutos eu já estava na oficina, pegando a chave e correndo para a minha sessão, como não tive tempo para escovar os dentes e nada mais, levei a escova pra minha sessão de cabines.

Falei com a Fran, ela me falou que alguns dos passageiros já haviam saído das cabines de minha sessão. A Mércia deu recado de alguns deles, então fui pra cabine mais próxima do meu trolley.
Entrei na cabine, não era uma cabine bagunçada, era cabine de família, normal, desarrumação padrão de camas usadas e banheiro molhado de banho diurno. Eu falei muito pouco com as meninas, pois não gosto de abrir a boca sem escovar os dentes. Então fui no banheiro da cabine, e escovei ali mesmo, usando o creme dental dos passageiros mesmo.
Arrumei a cabine inteira e fui seguindo trabalhando.
O bom que na temporada brasileira os passageiros não saem tão cedo quanto na Europa, então no horário que cheguei na sessão ainda eram poucas cabines pedindo arrumação. Dobrei as toalhas, limpei mais algumas cabines que foram desocupando ao passar da manhã.

Eram quase 13 horas quando as meninas falaram para gente descer pro almoço. Descemos sem pressa, pois o navio ainda não havia chego em Ilhéus.
Almocei com a galera de sempre, rimos alto, comemos a luz do sol. na varanda do crew bar.
E todo mundo saiu e foi pra suas cabines para escovar os dentes, eu, como sabia que minha escova estava na minha sessão, fui direto pra lá.
Vasculhei todo o meu "Locker" e o meu "trolley", e nada da bendita escova aparecer. Foi aí que me veio na cabeça.
"Filha da putaaaa, eu esqueci na cabine do passageiroooooooo"

Eu fiquei tão desesperado quando lembrei daquilo que fui correndo até a cabine e abri com tudo, sem ao menos bater na porta.
E pra piorar a situação, no instante que abri a porta da cabine, meus passageiros deram um pulo na cama, eles estavam dentro da cabine!!!
Imaginem a cara que fiquei em ter aberto sem bater, além disso, a cara dos passageiros me olhando imaginando o que havia acontecido para eu entrar assim tão bruscamente na cabine.

- Aconteceu alguma coisa Gustavo?
- Eeer... e é... não... na verdade... eu posso ver uma coisa?
- O que tem alguma coisa errada no quarto?
- Não... na verdade eu vim buscar minha escova de dentes...
(Vocês não tem noção do quanto eu fiquei vermelho ao falar isso, mas não passou nada na minha cabeça para usar de desculpa)

- Ah! Então é sua? Nós vimos ali uma escova diferente mesmo, mas eu pego pra você.

O pai da família pegou a escova pra mim, a mulher dele olhou com uma cara de espanto, ao mesmo tempo curiosa para saber o que a escova do camareiro de cabine deles estava fazendo ali...

Eu fechei a porta da cabine rindo da situação.
Galera, essa é uma das situações que não esqueço no navio, uma avalanche de acontecimentos,
tudo porque deixei acumular roupas para lavar.
A partir desse dia eu dava a roupa para a minha "Helper" lavar, pagava algo a mais pra ela, que gostava muito de mim, e fazia mais barato. Foi melhor assim, não precisei me preocupar com roupa nunca mais. Chegavam limpas e passadas na minha mão.
Contratem alguém para este serviço, vale a pena, você ganha tempo, e economiza dor de cabeça. Fica a dica.

Mas isso também não aconteceria se eu tivesse um companheiro de cabine gente fina, que me acordasse de manhã, ao invés de me deixar dormindo sabendo dos horários.

Cheguei na cabine após voltar da praia de Ilhéus, e falei com ele sobre o fato. Ele riu da minha cara, falou mal de brasileiros, como era de costume, e disse que não estava nem aí pra me acordar, que era melhor assim que era um brasileiro a menos na Europa.
FILHA DA PUTA MESMO AQUELE HONDURENHO.

Ele ria tomando refrigerante de um copo grande que ele usava sempre, um copo da Pullmantur, ele usava aquele copo todos os dias, toda vez que chegava na cabine, pegava um refrigerante do frigobar e enchia o copão da empresa.
Eu não falei nada pra ele, deixei ele ficar resmungando mal de brasileiros, eu apenas olhei o copo dele, a garrafinha de refrigerante de 600 ml ainda pela metade, que ele guardou na geladeira.
Apenas observei pensando no que eu iria fazer com aquilo tudo...


GALERA FOI MAL EU SUMI DE VEZ, ESTAVA VIAJANDO E FAZENDO ALGUMAS COISAS QUE ERAM LONGE DA NET, MAS AGORA TO DE VOLTA PROMETO NO MINIMO POSTAR UM CAPITULO POR SEMANA DA MINHA HISTORIA AKI, E OLHA Q TEM MTA COISA PELA FRENTE, INDIQUEM, SIGAM E ACOMPANHEM O BLOG QUE FALA A VERDADE NUA E CRUA SOBRE NAVIOS - A VIDA DO CREW! AUHAUAHUAHUAHUAHUAHUA

AVISEM A GALERA Q JAH TA ATUALIZADO BJAO!!! AAAAAAAH, COMENTEM, QUE É ATRAVÉS DOS COMENTÁRIOS QUE SEI SE VCS TÃO ACOMPANHANDO OU NÃO O BLOG. VALEU, PERGUNTEM O QUE QUIZEREM QUE NO POST NUMERO VINTE VOU FAZER UM VÍDEO RESPONDENDO TUDO E FALANDO DE CADA COMENTÁRIO DE VOCÊS. VALEU E PROMETO NÃO SUMIR

FOTO: ILHÉUS COM A GALERA.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Cap. 15 - O destino


...

- Que números são esses?
Ninguém entendia nada... Eu não respondi nada a ninguém... Apenas segui em direção a minha cabine, precisava ligar para a minha mãe... Foi o que eu fiz.
Deixei todo mundo com cara de espanto para trás, cheguei na minha cabine, estava vazia, o hondurenho mafioso que morava comigo, chamado Victor, não estava lá, devia estar esperando receber o salário também. Peguei meu cartão telefônico do navio, que já vou avisando, custa 20 dolares cada, e liguei para casa...

- Alô, Alô? - disse minha mãe no telefone.
- Oi mãe, é o Gutto.
- Oi filho, que bom que você ligou, como você está?
- To bem, agora já acostumei com tudo aqui, ta tudo bem aí em casa?
- Ta sim filho, tudo na mesma, aqui não muda muita coisa não...
- Hum, mas mãe te liguei pra dizer sobre o salário aqui...
- A é? Você recebeu já?
- Recebi hoje mãe, e liguei pra dizer que esse mês não vou poder te enviar nada porque o salário veio muito diferente do que pensei que viria...
- Como assim filho? Não ia receber uns 2 mil dólares mensais?
- Então, eu também pensei que seria isso, mas deve ter acontecido alguma coisa, eu recebi sabe quanto?
- Fale filho, quanto?

Respirei fundo para falar, e soltei:

- 456 DÓLARES! Acredita nisso mãe, só 456 DÓLARES...
(gente não desanimem, acompanhem a história para saber o motivo viu hehehehe)

- Mas não tem problema filho, deve ter um motivo pra isso, o importante que você ta firme e forte aí, to orgulhosa de você, muito!

Ela me quebrou quando disse isso, tentei segurar mas não deu, comecei a chorar.
- Mão to morrendo de saudades, to morrendo de saudades mesmo, você faz muita falta pra mim, as crianças também...

Nem preciso continuar contando o restante do telefonema, foi só suspiros e soluços.

Passou algum tempo fui percebendo portas batendo e pisadas fortes no corredor. Abri a porta da minha cabine pra ver o que estava acontecendo. Eram os outros camareiros, ou cabinistas (como dizem no navio), revoltados pelo salário que havia pego. Nessa hora ouvia-se apenas xingões e palavrões baixos. EU fechei a porta e preferi deitar um pouco pra esquecer tudo aquilo. Então o pensamento veio em minha mente.

- Será que isso tudo vale a pena mesmo?

No dia seguinte, na hora do almoço, a maioria dos camareiros brasileiros estavam juntos na mesa, e o assunto não poderia ser outro a não ser o salário. Ninguém ficou satisfeito com o que havia ganho, e uma das meninas, a mais velha que falou "Meu Deus" quando viu meu comprovante de pagamento, já havia pedido as contas, ela iria desembarcar no sábado, voltar para Curitiba.
O sábado chegou e ela se foi, mas uma baixa no housekeeping, e para que não houvesse mais isso, pedidos uma reunião com o nosso chefe, esplicando o POR QUÊ daquele salário.

O pedido foi aceito. Estávamos todos na reunião, todos os 70 camareiros, já com uma das meninas novas, que entrou para cobrir os que sairam, chamava-se Teresa, era seu segundo contrato. Chefe Eldon chegou com alguns papéis, e os seus fiés escudeiros juntos ao lado do chefe.
Aí a reunião iniciou.

Ya lo sei que ustedes todos no eston felices pela plata que receberam ahora, entonces voy a explicar:

Ele falou sobre a comissão e sobre o fechamento do mês. Na Pullmantur, o mês salarial se fecha no dia 20, então nós que chegamos no dia 6, e iniciamos o trabalho no dia 7/12, recebemos apenas 13 dias, e desses 13 dias, apenas uma semana comissionada. Pois a primeira semana não havia passageiro nenhum, então, o que fez com que essa semana fosse calculada em cima do salário base para camareiro/cabinista que é de 1115 dólares. Além disse tiveram descontos de vocês, de 200 dólares, referente ao seguro passagem, que é devolvido no final do contrato, e os gastos do seu crew pass. Além de camisa de calça do uniforme, para quem não tinha.

Ninguém havia lido mais nada além dos números baixos do salário, então todo mundo analisou melhor o comprovante, e viu realmente que haviam bem mais números ali, e haviam descontos e tals. Então agora vendo tudo aquilo, e sabendo que recebemos apenas por 13 dias trabalhados, o salário estava muito bom.
Então para ter certeza de tudo, perguntei ao meu chefe o quanto recebíamos de comissão por passageiro, ele respondeu.

Vocês ganham 17 dólares por passageiro em sua sessão, se na semana do primeiro cruzeiro, que é o que foi pago nesse salário, vocês tiveram uns 35 passageiros, calculem 17 por cada, e depois dividam 1115 por 4 e no final somem os dois resultados, diminuam os descontos de crew bar, seguro passagem e uniforme e vejam o que dá, se estiver errado me procurem que levo vocês ao chefe de contas do barco para um calculo de analise.

Eu fiz os meus calculos: Tive 32 passageiros, 32 x 17 = 544 dólares por aquela semana, dividi 1115 por 31, deu 36 dólares por dia, e fiz isso vezes os 6 dias que trabalhamos sem passageiro, 216. O salário deu 760 dólares com esses cálculos, então foi a hora de descontar, 200 do seguro passagem ( que realmente é devolvido quando você vai embora), mais 40 da calça do uniforme que tive que comprar uma a mais, e 46 de crew bar, era 1 dólar cada cerveja no navio.
Resultado: me sobraram os exatos 456 dólares que estavam guardados na minha cabine.

Senti uma alívio tremendo quando calculei tudo aquilo. Então passei a anotar todos os passageiros que eu tinha, semana a semana para comparar com o salário do final do mês, atém então eu estava com bastante passageiros, devido as datas comemorativas de Natal e Reveillon, que o navio lotou. E que semanas difíceis foram elas.

Eu nunca havia passado Natal longe da minha família, Ano Novo sim, mas Natal na minha família é sagrado, e foi o primeiro que passei longe. Os passageiros nos desejavam um "Feliz Natal", eu sorria, apenas pra fora, porque por dentro estava bem desanimado com aquele dia, imaginando como estava a entrega dos presentes no Amigo Secreto que acontece todo ano na casa da minha avó. o Crew Bar esse dia de Natal foi pura tristeza, todo mundo desanimado, querendo que aquela noite passasse logo e o dia seguinte mais ainda, para que chegasse o dia 26, um dia normal como outro qualquer no calendário.
Lembro que abri meu email, e entrei no orkut, para ver os recados dados a mim, haviam muitos me desejando sorte, força e um "feliz natal", mas o que mais me chocou foi o do meu amigo, o Bruno, que estava embarcado pela Ibero Cruise, que fez a entrevista lá, lembram? Então o recado dele era assim, na verdade um depoimento:

"Amigo, espero que esteja tudo bem com você aí, pois comigo não está. Aqui está tudo muito difícil, a comida é ruim, e eu até agora não tenho sessão, minha chefe chama-se Radka, ela é legal até, mas não me deu sessão ainda, eu estou só ajudando os outros, ela diz que eu sou muito lerdo pra ter uma sessão ainda. Além disso, eu fiquei enjoando por 15 dias, vomitei horrores, então só to mandando esse depoimento pra você pra lhe contar que amigo, me perdoa mas eu FRACASSEI, já assinei meu Sign-off e estou indo pra casa dia 23."

Quando li o depoimento era dia 26 já, então nem pude mandar nada para que ele mudasse de idéia.
O Ano novo foi mais animado no navio, foi o dia que bebemos muito, e no outro dia em vez de entrarmos as 9 como de costume em dia de navegação, entramos as 10, com permissão do nosso chefe Eldon. Foi ótimo.

Mas ali no meu caderninho o que me vinha de melhor recordação era o número de passageiros mesmo, que estavam altos.
Já era meio do mês de janeiro, não havia tanto passageiros como esperávamos, mas o que mais nos animava era que faltavam apenas 1 mês e meio para irmos para a tão esperada EUROPA.
E foi referente a ela mesmo que estavam comentando certo dia de janeiro no Crew Bar.

"- Dizem que nem todo mundo vai para a Europa, que só quem eles acharem melhor, o resto é mandado embora no final da temporada brasileira..."
" - Diz que só vai 10 de cada setor..."
" - Meu chefe já disse que terá cortes..."

Eram os comentários do pessoal dos outros setores, a galera do bar e restaurante tava temendo a dispensa, e pra gente, do Housekeeping, ainda não haviam falado nada. A grande verdade é que nosso chefe Eldon podia xingar, gritar, brigar, mas sabia que todo mundo estava ali porque precisava de dinheiro, então nunca mandou ninguém embora. Já os chefes dos outros setores não eram tão bons quanto.
Então realmente falaram de cortes no restaurante, porque precisavam de pessoas mais rápidas, alguns dos garçons não estavam acompanhando o ritmo do trabalho, isso refletia no comentário do passageiro, e o percentual ia direto para a diretoria da empresa, graças a Deus o setor com melhor desempenho era o nosso, acho que por isso não havia cortes no nosso departamento.
A dica foi dada, e a galera do restaurante estava preocupada com isso. Foi quando conheci melhor um dos rapazes mais interessantes que falei no navio, não pela beleza algo do tipo, que também não deixava de ser interessante, mas sim pela história de vida dele.
Estávamos no bar comentando sobre o que estavam falando que iriam mandar uma galera do restaurante embora, ele disse que não estava com medo, que confiava em Deus, que se fosse para acontecer de ele ser mandado, não se importaria, pois algo melhor estaria esperando ele fora dali.
A fé dele no próprio destino era comovente, então começamos a conversar e perguntar o que fazia antes de chegar ao navio, se já havia pensado alguma vez na vida sobre estar ali.
Eu falei:

- Cara eu nunca pensei que fosse trabalhar em navio, nem quando eu era criança, e olha que eu sempre fui de pensar sobre o que fazer, sabe quando a gente é moleque né, que falamos em ser médico, astronauta, artista de teve, pensei em tudo isso, menos "marinheiro" hehehehe...
Eu ri, mas vi que ele continuou sério e um pouco deprimido.
- O guri, que aconteceu, ta sério?

- Nada não guri, é que eu lembrei de uma coisa...
- O que, vai dizer que quando você era criança você pensou em ser marinheiro?

Ele olhou diretamente nos meus olhos, os olhos dele estavam molhados, mas não estavam tristes, havia algo vitorioso ali dentro daquele olhar, foi quando ele passou a responder o que eu disse.

" Na real Gustavo, eu não pensava nem que eu estaria vivo quando chegasse nessa idade, eu quando era criança vivia com medo, mas tudo mudou depois de um tempo."

Eu, o mais curioso, perguntei o que acontecia, ele me contou.

"Minha mãe faleceu quando eu tinha 5 anos, meu pai ficou bem de cara e ele começou a beber todo dia depois que ela morreu, eu tinha um irmão mais novo, e eu e ele ficávamos em casa sozinhos, até ele chegar bêbado, batia na gente, culpava meu irmão mais novo. A gente vivia chorando e tals, mas eu comecei a estudar e fazer amizades, então eu pegava meu irmão e a gente ia brincar na casa dos meus amigos de colégio, tentar ter uma infância legal, porque em casa era foda piá... Daí pra piorar ele quando eu tinha uns 9 anos, arranjou uma mulher lá, ela foi morar com a gente. Eu morava em um morro lá perto da rodoviária de Floripa. E morava bem no alto. Meu pai conheceu essa mulher em um bar, então imagina, era igual ele, bebia e ficava só fazendo zona, não melhorava em nada. Eu brigava com ela todo dia, pois ela não fazia nada em casa, parecia um chiqueiro e manda eu e meu irmão ficar limpando, fazia meu irmão faltar aula pra ficar fazendo as coisas pra ela. Eu a odiava. Falava pro meu pai sobre o que fazia, ele me batia e dizia que se eu não tava satisfeito eu que fosse embora. Eu morria de vontade de fazer isso Gustavo, só não ia por causa do meu irmão menor..."

Nessa parte da história eu já estava quase chorando, ele contava olhando diretamente pra mim, e eu não tinha o que falar, apenas o ouvia com toda atenção do mundo... Ele continuou.

"Um dia voltei pra casa e não encontrei meu irmão, perguntei pra mulher do meu pai lá e ela nem me disse nada, fui saber só a noite pelo meu pai que ele falou pra minha vó pegar ele porque a gente só dava despesa pra ele e agora com a mulher dele lá não dava pra ficar com os dois lá, e eu já tava crescendo e podia trabalhar ele não."

- Nossa piá, que foda... - era o que podia comentar, pois não havia conhecido nenhuma situação parecida até então... deixei ele continuar...

"... mas daí foi pior piá, ele me batia todo dia quase, porque eu além de estudar tinha que fazer tudo em casa, lavar roupa e tudo piá, e se ele chegasse e não tivesse feito, ele me batia. Daí comecei a trabalhar, entregar panfleto pra mercados perto de casa, e ele pegava todo o dinheiro, e ainda tinha que chegar e fazer as parada em casa. Um dia voltei sem dinheiro porque eu não tinha ido entregar panfleto, fui fazer trabalho de colégio. Falei pra ele e ele não me ouvia, me bateu muito piá. Eu falei que ia embora de casa, e fui. Só fiquei ouvindo ele gritar, volte aqui, volte aqui, eu passei a noite fora, mas passei frio, e decidi voltar pra casa... Quando eu voltei Gustavo, meu pai tava me esperando, ele tava com um pedaço de pau velho, tipo saindo aquelas ferpas de madeira sabe. Ele me fez ficar só de cueca, eu tinha 11 anos piá, ia fazer 12, me bateu, me bateu que me tirou sangue, me deu soco, na cara, eu fiquei atirado no chão, esse foi o dia que consegui sentir um pouco de compaixão pela mulher dele, foi ela que segurou ele, senão eu acho que ele tinha me matado, por isso eu digo que quando eu era criança eu nem sabia que estaria vivo hoje. Depois que ele parou de me bater, viu eu todo cheio de sangue e falou... "VOCÊ QUERIA IR EMBORA, AGORA VAI, AGORA VOCÊ VAI, PORQUE AGORA EU NÃO QUERO VOCÊ AQUI, VOCÊ NÃO IA EMBORA ANTES DE RECEBER O QUE MERECE POR FICAR ME DESAFIANDO"...
"Nesse dia foi o último que vi meu pai, dormi uns 3 dias na rua, sem nada, foi quando uma freira me encontrou e me levou pro Lar (não lembro o nome que ele disse, mas era de floripa msm), e agora to aqui. Nossa piá lá eu vive até ano passado, agora moro sozinho no centro ali, num quarto, mas to de boa, e depois que comecei a confiar mais em Deus do que nos homens, nunca aconteceu nada de mal pra mim depois que deixei as coisas acontecerem. Se os caras me mandarem embora, sei que Deus tem um futuro melhor pra mim, igual quando meu pai me mandou embora de casa, tudo melhorou na minha vida..."

Ele havia terminado de contar, meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas eu disfarcei para que não o constrangesse. Ele ao final de tudo questionou:

"- Nossa, nem sei o porque que eu contei tudo isso pra você"...
- Sei lá, você se sentiu a vontade pra contar pra mim, e nem se preocupe guri fica entre a gente de boa..."

"- De boa Gustavo, você é gente fina mesmo... Mas a vida é essa, tem coisa que não é a gente que decidi né, vamos ver se tiver o corte mesmo e me mandarem, a gente tem que pegar o contato um do outro, pra manter, e também quero o contato daquela tua amiga gostosa lá hein (ele tava falando da Dani)...."

Foi nessa hora que passamos a falar de mulheres, claro eu no trucão, e ele falando das camareiras, mas na minha cabeça a história de vida dele ficou impregnada, fiquei alguns dias com aquilo na cabeça. Eu pensava:

"tem gente aqui reclamando da comida, do trabalho, nossa, quanta gente não tem nada pra comer? Quanta gente gostaria de ter um trabalho, ou até mesmo de ter saúde para trabalhar?"

Sem perceber, aquele assistente de garçon, assistant waiter, fez com que eu firmasse minha vida no navio, que eu realmente não desistisse por nada, e a história dele fez com que eu mantivesse uma reflexão profunda sobre valores da vida...

Me segurei muito tempo e não contei a história dele a ninguém, estou compartilhando com você pois aqui ele está como anônimo. E com certeza, com o desejo, fé e perseverança do garoto, ele deve ta muito melhor que eu e muitos outros aí que ainda reclamam da vida, sem ao menos ter vivido o lado realmente ruim dela.

Essa história refletiu até no meu modo de trabalho, eu passei a trabalhar melhor, e isso me rendeu resultados bons, incluindo uma inspeção com o Morazam e Curt, que levei a melhor nota do deck, nada havia ficado pra trás, estava tudo muito limpo. Com aquela história toda de quem vai ou não para a Europa, me senti mais seguro, pois meu trabalho estava sendo bem avaliado.

E um cruzeiro antes do final do mês, nosso chefe Eldon fez uma reunião. Eu pensei que era uma reunião comum, que ele fazia toda semana antes do embarque do cruzeiro seguinte, mas a pauta da reunião era outra. Ele enrolou um pouco mas soltou.

"La Pullmantur vai empezar con un crucero pelo Atlantico, con passageiros Portugueses, e necessitam de personas que hablam portugues, entonces pediram que yo lles mande algunas personas, entonces quiero que las personas que desejam ir, firmem los nombres aca, la hoja estara en la oficina hasta mañana."

Isso assustou a todos. Alguns de nós iriam de transferência para outro barco, com cruzeiro pelo atlantico, com passageiros portugueses, ele nos deu a chance de nos voluntariar, mas independente disso, iriam pessoas de qualquer jeito. E foi nessa jogada que achamos uma solução para o tititi sobre a Europa.

Após a reunião, os camareiros mais chegados, todos brasileiros é óbvio, me chamaram para uma reuniãozinha nossa no crew bar...
Trabalhei ansioso para o tal encontro, e quando cheguei no Crew Bar, estavam todos lá. Dani, Marli, Fran, minha Help Lu, Sandrinho, Denilson, Gale, Bruno, e mais uma galerinha. Só sei que no total estávamos em 13 pessoas.
Então a máfia surgiu.
- Qual é plano?

NO PRÓXIMO POST TUDO SOBRE A MÁFIA EUROPÉIA HEHEHE, GALERA CONTINUEM ESCREVENDO E COMENTANDO ISSO EM EMPOLGA MAIS A ESCREVER, E A GALERA QUE TA COM DÚVIDA OU QUER QUE EU FALE SOBRE ALGUM CARGO DO NAVIO, FALAREI, FAREI UM VIDEO RESPONDENDO TODOS OS COMENTÁRIOS E PERGUNTAS DE VOCÊS. FAÇO ISSO A CADA 10 CAPÍTULOS. ENTÃO VÃO MANDANDO AÍ QUE LOGO JÁ SERÁ RESPONDIDO. DIVULGUEM E SIGAM ALI DO LADINHO..... vlw rapaziada....
TENSO A HISTÓRIA DO PIAZÃO NÉ? hehe mas me ajudou penkas!

FOTO : Galera família minha no navio!


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cap. 14 - O tão esperado dia - o primeiro pagamento


Continuandooo...

A luz estava apagada ainda, mas pelas sombras que surgiram ao abrirmos a porta, percebi que eu iria me encrencar com essa primeira inspeção, e o pior, como dizem, a primeira impressão é a que fica, respirei fundo e acendi a luz da cabine.
Estava um desastre. Roupas em cima da cama, a cama desfeita, mancha de maquiagem na penteadeira, dedos no espelho. Para minha surpresa, o chefe Eldon nem reparou nesses "detalhes", o que mais irritou a ele, foi ver duas toalhas usadas penduradas nos ganchos ao lado do banheiro, a ordem dele foi sempre trocar as toalhas tanto a noite, quanto de dia, nos dois turnos. Então ele se dirigiu a mim, com uma cara nada contente e disse:
"Que passo aqui muchacho? Esta un desastre! Por que las toallas no fueram cambiadas? Habla a mi, HABLAAAAA!"
E eu mais que ligeiro respondi:
"Chefe eu limpei a cabine mas os passageiros voltaram, e desarrumaram tudo, e as toalhas, eu não troquei porque tem um aviso ali no banheiro (e realmente havia), dizendo que para ajudar o meio ambiente e a empresa, só se troca as toalhas que estiverem no chão, as que o passageiro deixar pendurada é porque eles não querem que troque, que vão reutilizar..."

O meu supervisor apenas olhou pra mim com um olhar de desaprovação, Eldon, o chefão, então ficou mais vermelho do que estava e gritou...
"TOALLAS NO CAMBIAM SE NO ESTIVEREM EN SOLO?" PORQUE NO CAMBIASTE ESTAS?"

Em primeiro momento eu não entendi o que ele quis dizer repetindo a pergunta, mas alguns segundos depois vi o que era. As toalhas foram arremessadas violentamente ao chão, a parede, e contra as malas dos passageiros. Eldon estava louco, jogou todas as toalhas, inclusive a de chão, em toda a cabine. E repetindo, "Entonces ahora tendre de cambiar!", ele jogou tudo no chão. Após o ataque de ira, ele saiu da cabine sem ao menos fazer a inspeção, que é claro, depois da cagada toda, nem era necessária né, e Curt o acompanhou. Ele gritava no corredor, com meu supervisor, Curt.

"Este tico no sabe de NADAAAAAAAAAAAAAA" "Usted no hablou o que ele tendria que hacer???" "ELLE NO SABES NADAAAAAAAAA"...

Os dois se distanciaram, eu me senti muito mal, não por mim, mas pelo Curt, meu supervisor, o cara sempre foi muito gente fina, não merecia aquele sermão por minha causa, apesar de realmente nunca ter me ensinado nada. Apenas cobrado, então, fazer o que não é? É o que tinha para aquele dia.
Depois que eles saíram, alguns camareiros que trabalhavam próximos foram até mim, perguntar o que havia acontecido. Eu expliquei e todos ficaram amedrontados, todo mundo fazia a falcatrua de receber REFUSED e por no DAILY REPORT que havia sido feita. Todo cuidado é pouco em navio, as vezes que você faz alguma coisa errada, sempre tem alguém pra dedar ou o destino faz com que a casa caia. Mas tirando essa vez que foi uma exceção, no restante eu me dei bem.

O Curt voltou no final do expediente noturno, para falar comigo, eram quase 11 da noite quando ele chegou, eu chamei ele, e pedi desculpas pelo acontecido, ele falou que a culpa não era minha, era apenas dele de não ter dado treinamento algum para nenhum dos novos camareiros que estavam nos decks onde ele era responsável. Fiquei feliz com a atitude dele, e mais feliz ainda por não ter me xingado e me dado trampo extra, ou ficado no meu pé. Passaram-se alguns dias, e ele juntou a galera de dois andares, somente os novos, e arrumou uma cabine pra gente ver como que era, passo a passo. Isso ajudou muito os novos e fez com que eu trabalhasse melhor.
Já era quase final do mês, e estávamos perto de receber o primeiro salário. No Crew Bar, depois do nosso longo expediente diário, conversavámos, eu e toda a galera, agora maior com a junção de outros setores como Bar e Restaurante, e uma cleaner que conhecemos, e logo que a conheci a contratei pra ser minha helper durante a semana caso eu precisasse, todos a conheciam como Lu, até ele trabalhar pra mim, assim que começamos a trabalhar juntos, eu sempre a chamava apenas de Help, nem helper era e sim help mesmo, e assim todo mundo passou a chamá-la. Ela não se importava, achava divertido, então o apelido pegou. Estavámos falando de como havia passado um mês quase, e já parecia estarmos a muito mais tempo dentro do barco. Verdade mesmo galera, a impressão que dava era que estávamos a uns 4 meses já, pois a vida lá dentro é muito intensa, acontece muita coisa todos os dias, é muita informação.
Haviam pessoas ótimas, personalidades fortes, mas que não estavam aguentando a saudade da família, um exemplo de um caso desse é nossa querida Larissa, nordestina arretada que morava em Floripa, ela trabalhava bem, não reclamava da rotina que levávamos, a única queixa dela era a saudade que sentia da família.
Fui dormir com esses assuntos na cabeça, o tempo que estávamos embarcados, com pensamento sobre a falta da família, e sobre a má impressão que deixei o chefe Eldon ter de mim.
Faltavam 4 dias para o dia do pagamento, e o relógio parecia andar em camera lenta...
Melhorei meu modo de trabalho, parei de fazer refused frequentemente como outros camareiros faziam, queria mudar a impressão que Eldon teve de mim. Meu supervisor Curt viu o quanto melhorei, ele sorria ao entrar nas minhas cabines, estava realmente satisfeito. A cagada é que o Eldon nunca mais acompanhou os supervisores nas inspeções. Então quando havia uma nova, eram dois supervisores, não mais o Eldon. Geralmente era o Morazan, que era quase um chefe Eldon, só que um pouco mais estúpido.
Após uma das inspeções que estavam tendo no nosso deck, eu e a Fran, que trabalhava na sessão ao lado da minha, nos juntamos em uma cabine para conversar a respeito da inspeção, com havia sido. Eu não havia tido problema na minha, ela também não, então como ela já estava por lá, começou a arrumar o banheiro e eu fui fazendo a cama. Ligamos a tv só para ouvir algo que estava passando. Quando ligamos estava no canal de filmes do navio, não estava em nenhuma emissora, o filme era DOIS FILHOS DE FRANCISCO. Já estava acabando o filme. Foi automático, eu e a Fran paramos o que estávamos fazendo. E olhamos a cena que passava. Era o final do filme quando Zezé di Camargo e Luciano estão num show, e seus pais entram de surpresa, que eles choram. Eu olhei para o lad, um pouco tímido, pois eu estava chorando também, e não me surpreendi quando vi a Fran, aos prantos, chorando e dobrando as toalhas.

- Eu to com muita saudade da minha mãe... - eu confessei a ela.
- Eu também, eu quero muito minha família, muito...

Nos abraçamos, e choramos mais um pouco. Não choramos pelo filme, mas sim pela emoção que seria rever nossas famílias, a gente entendia o que Zezé e Luciano estavam sentindo ao ver os pais ali do lado deles, a diferença, é que a nossa família, a gente só iria ver no final do contrato, e por mais que parecesse ter passado um bom tempo dentro do navio, ainda estávamos no primeiro mês...

Mas essa tristeza foi embora logo, pois finalmente chegou o dia do pagamento. O primeiro pagamento em dólar da minha vida.
O pagamento é dividido por setor, todos recebiam no mesmo local, mas em horários diferentes, o Housekeeping, recebia pela manhã, a partir das 9 da manhã, mas isso muda de barco para barco.
A fila estava grande, todos camareiros de primeira viagem rindo a toa, aguardando o tão esperado salário.
Eu era o primeiro dos novatos na fila, o restante estava atrás de mim, cheguei perto da mesa, o rapaz do outro lado dela pediu meu crew pass, eu entreguei, ele me deu um envelope com uma folha grampeada, pediu para que eu assinasse outra folha, também, então pegou o envelope e foi contar as notas na minha frente, para garantir que eu recebi exatamente o que estava no papel. Eu estava tão empolgado que nem vi que tinha o valor do lado da folha. E quando ele retirou as cédulas do envelope para contar e me mostrar, pensei imediatamente o que precisaria fazer logo depois de pegar aquele dinheiro....
"Preciso ligar para a minha mãe"...
O rapaz pediu para que eu assinasse a guia que ficava com ele. E foi quando eu conferi realmente o valor ao lado do meu nome...
Todos pararam de sorrir eu ver a minha expressão facial...
"Gustavo o que aconteceu? Quanto você ganhou?"
"Gu diz aí pra gente?"
"Nossa parece que viu um fantasma! O que ta escrito aí?"
Então eu fiquei de frente a galera, o envelope em uma das mãos, e o comprovante de pagamento eu outra, onde continha os valores. E falei..

- Olhem isso aqui!!!

Todo mundo olhou, até que uma das brasileiras mais velhas, mas não menos bela do que as mais novas, exclamou:

- Meeeuu Deeeuuus!

As palavras sairam lentamente da boca dela...




GALERA EU CONTINUO AMANHA OU DEPOIS BELEZA, LOGO QUE CHEGAR NO CAPITULO 20 EU FAÇO UM VIDEO RESPONDENDO TODOS OS COMENTÁRIOS, TO CURTINDO MUITO LER A OPINIÃO DE VOCS.. QUALQUER DUVIDA PERGUNTA.... VALEU MSM, ASSIM EU FIKO CADA DIA MAIS EMPLOGADO A CONTAR A MINHA HISTÓRIA A VOCES!!!!